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No mercado de moda, a regra mais repetida é "multiplica por dois e pronto". Ela até parece funcionar no começo, mas esconde muitos custos: o frete do fornecedor, a sacola, a etiqueta, a taxa do cartão parcelado, as trocas, as peças que mancham ou rasgam no provador, a liquidação de fim de coleção. Quando tudo isso entra na conta, o "dobro" muitas vezes deixa pouco ou nada.
Revenda: o custo real de cada peça
Quem compra a peça pronta para revender precisa somar ao valor do fornecedor:
- Frete, dividido entre as peças da compra. Se você comprou 40 peças e pagou R$ 60 de frete, cada peça recebe R$ 1,50. Quando as peças têm valores muito diferentes, faz mais sentido dividir proporcionalmente ao valor de cada uma.
- Embalagem: sacola, papel de seda, etiqueta, tag.
- Impostos pagos na compra, quando houver.
- Perdas e avarias: peça manchada, rasgada, com defeito, furtada ou que ficou parada até sair de moda. Em moda isso também é quebra de mercadoria e precisa estar no preço.
Exemplo: uma camisa comprada por R$ 30,00, com R$ 1,50 de frete e R$ 1,20 de embalagem, tem custo de R$ 32,70. Esse é o número que entra na conta, não os R$ 30,00 da nota.
Confecção própria: a ficha técnica da peça
Quem produz precisa de uma ficha técnica para cada modelo:
- Tecido: metragem usada por peça, considerando o desperdício do corte.
- Aviamentos: linha, botões, zíper, elástico, etiqueta interna.
- Corte e costura: o seu tempo ou o valor pago à costureira ou à facção.
- Acabamento e embalagem.
O peso do parcelamento
Em moda, o cliente parcela muito. E cada parcela tem custo: a taxa do crédito parcelado é maior do que a do crédito à vista, e se você antecipa os recebíveis, paga mais um percentual. Uma peça vendida em seis vezes pode deixar bem menos do que a mesma peça no Pix.
Por isso vale calcular o preço com a taxa média que você realmente paga. Ou oferecer um preço menor à vista e no Pix, informado com clareza.
Exemplo de preço de uma peça
Camisa com custo de R$ 32,70. Percentuais da loja:
- Imposto sobre a venda: 6%.
- Taxa média de cartão, considerando parcelamento: 5%.
- Gastos fixos: 22% do faturamento.
- Reserva para trocas e liquidação: 4%.
- Lucro desejado: 12%.
A soma é 49%. O preço é 32,70 dividido por 0,51, igual a R$ 64,12. Na etiqueta, R$ 64,90.
O "dobro" daria R$ 65,40, quase o mesmo. Mas, se a mesma loja tivesse gastos fixos de 30%, o preço correto subiria para R$ 76,05. Vendendo pelo "dobro", o lucro cairia de 12% para cerca de 5%. O multiplicador certo depende da estrutura de cada loja.
O CMV como termômetro
Para lojas de varejo, uma referência comum é manter o CMV, o custo da mercadoria dividido pelo preço de venda, entre 30% e 35%. Faça essa conta para todas as peças. As que estão muito acima dessa faixa merecem revisão de preço ou de fornecedor.
Coleção, liquidação e giro
Roupa tem prazo de validade: a estação. O que não vende na coleção vai para a liquidação com desconto. Esse desconto precisa estar previsto desde a compra. Se você sabe que, em média, uma parte da coleção sai com desconto, o preço das peças vendidas no preço cheio precisa compensar isso.
Acompanhe também quais peças giram mais. Em geral, uma pequena parte dos modelos responde pela maior parte do faturamento. Essas peças merecem reposição rápida e atenção especial ao custo.
Venda pela internet
Nas redes sociais e no site, entram outros custos: frete de envio, embalagem de envio, taxa da plataforma de pagamento, comissão do marketplace e trocas por correio. Calcule um preço próprio para cada canal, em vez de usar o da loja física.
Resumo
- O custo da peça inclui frete, embalagem, impostos e perdas, não só o valor do fornecedor.
- Na confecção, faça a ficha técnica de cada modelo.
- Considere a taxa média do parcelamento no preço.
- Use a fórmula: custo dividido por (1 menos a soma dos percentuais).
- Acompanhe o CMV e preveja a liquidação desde a compra.






