Paulo Mattos Mentor Ver o Desafio
Guia completo

Como precificar: guia completo

Aprenda a formar o preço de venda passo a passo: custos fixos e variáveis, margem, markup, impostos, taxas de cartão, descontos e reajustes.

Por Paulo Mattos · 8 min de leitura

Como precificar: guia completo
Neste guia
  1. Por que tanta empresa vende bem e não vê lucro
  2. Etapa 1: os conceitos que você precisa dominar
  3. Etapa 2: o custo completo do produto
  4. Etapa 3: separar os gastos fixos e variáveis
  5. Etapa 4: a fórmula do preço de venda
  6. Etapa 5: margem, markup e o mito dos 100%
  7. Etapa 6: preço não é valor
  8. Etapa 7: um preço para cada canal
  9. Etapa 8: desconto com conta
  10. Etapa 9: reajustar no ritmo dos custos
  11. Etapa 10: acompanhar os números
  12. E quando o negócio vende serviço?
  13. Os erros mais comuns, em uma lista
  14. Por onde começar

Boa parte do lucro de uma empresa nasce na precificação. Você pode vender muito, ter clientes fiéis e trabalhar de domingo a domingo: se o preço estiver errado, o dinheiro não sobra. E o contrário também é verdade. Muitos negócios que vivem apertados não precisam vender mais. Precisam vender pelo preço certo.

Este guia reúne, em ordem, tudo o que você precisa entender para precificar produtos e serviços: os conceitos, o que entra no custo, a fórmula do preço, a percepção de valor do cliente, os descontos, os reajustes e os erros mais comuns. Cada etapa tem um guia próprio, com mais detalhes e exemplos, na lista ao final desta página.

Por que tanta empresa vende bem e não vê lucro

A cena se repete em muitos negócios: o movimento é bom, o faturamento cresce, mas no fim do mês o dinheiro some. Quase sempre, a causa está em um destes pontos:

  • O custo do produto está incompleto. Ficou de fora o frete, a embalagem, o imposto da compra ou as perdas.
  • O preço foi copiado do concorrente ou definido no achismo.
  • Imposto e taxas não estão no preço, ou foram somados do jeito errado.
  • Os preços não acompanham os custos, que sobem o tempo todo.
  • A empresa confunde faturamento com lucro e mistura o dinheiro pessoal com o do negócio.

A boa notícia é que todos esses pontos têm solução, e ela começa por entender alguns conceitos.

Etapa 1: os conceitos que você precisa dominar

Não é preciso ser contador para precificar bem. Mas alguns termos precisam estar claros:

  • Preço de custo: tudo o que você paga para ter o produto pronto para vender.
  • CMV, o custo da mercadoria vendida: o custo dos produtos que você efetivamente vendeu. Em percentual, mostra quanto do preço vai embora só com o produto.
  • Preço de venda: o valor que o cliente paga.
  • Margem de contribuição: o que sobra de cada venda depois de pagar o custo do produto, o imposto e as taxas. É ela que paga as contas fixas e forma o lucro.
  • Margem de lucro: quanto sobra para a empresa no fim do mês, depois de pagar tudo.
  • Markup: o número que multiplica o custo para chegar ao preço.

Uma ideia atravessa todos eles: o produto não dá lucro, quem dá lucro é a empresa. Cada venda contribui. O lucro só existe quando a soma de todas as contribuições do mês é maior do que todos os gastos.

Etapa 2: o custo completo do produto

O custo é a base de tudo, e é onde mais se erra. Ele inclui:

  • Valor pago ao fornecedor ou, se você produz, a soma dos insumos.
  • Frete da compra, dividido entre os itens da nota.
  • Embalagem: caixa, sacola, fita, etiqueta, pote. Em alguns negócios ela custa quase tanto quanto o produto.
  • Impostos pagos na compra, como a substituição tributária.
  • Perdas e quebras: o que vence, estraga, mancha, quebra ou some.

Quem produz precisa de uma ficha técnica para cada produto: a lista de todos os insumos, a quantidade usada e o aproveitamento de cada um. A cebola tem casca, o camarão perde água, o arroz rende mais do que o peso comprado. Tudo isso muda o custo real.

E a ficha técnica precisa ser atualizada. Se a farinha sobe, todos os produtos que usam farinha ficam mais caros de fazer, mesmo que você não perceba na hora.

Etapa 3: separar os gastos fixos e variáveis

Para colocar preço, é preciso saber o que a empresa gasta e como cada gasto se comporta:

  • Gastos variáveis acompanham as vendas: mercadoria, insumos, embalagem, imposto sobre a venda, taxa de cartão, comissão.
  • Gastos fixos existem vendendo ou não: aluguel, salários, contador, internet, sistema e o seu pró-labore.

Os variáveis entram no preço de cada produto. Os fixos entram como um percentual do faturamento: some os gastos fixos do mês e divida pela média de faturamento. Se a empresa gasta R$ 15.000 por mês de fixos e fatura R$ 75.000, os fixos são 20% do faturamento.

Com essa separação, você também descobre o ponto de equilíbrio: quanto precisa vender no mês só para empatar.

Etapa 4: a fórmula do preço de venda

Com o custo e os percentuais em mãos, o preço sai de uma fórmula simples:

Preço de venda = custo dividido por (1 menos a soma dos percentuais)

Na soma entram imposto sobre a venda, taxa de cartão ou aplicativo, comissão, gastos fixos e o lucro desejado.

Exemplo: custo de R$ 30,00. Imposto de 6%, cartão de 3%, gastos fixos de 20% e lucro desejado de 15%. Os percentuais somam 44%. Um menos 0,44 dá 0,56. O preço é 30 dividido por 0,56, igual a R$ 53,57.

O erro mais comum é somar os percentuais em cima do custo: 30 mais 44%, igual a R$ 43,20. Como imposto, taxa e gastos fixos são cobrados sobre o preço de venda, essa conta deixa o preço curto, e o lucro desaparece.

Etapa 5: margem, markup e o mito dos 100%

"Comprei por R$ 50, vendi por R$ 100, ganho 100%." Não. A diferença de R$ 50 representa 50% do preço de venda. É dessa metade que ainda saem impostos, taxas e as contas fixas.

O markup é útil, mas só quando é calculado a partir dos seus percentuais. Multiplicar tudo por dois ou por três porque alguém disse que funciona é um chute com cara de método.

Etapa 6: preço não é valor

O preço é o número na etiqueta. O valor é o que o cliente percebe. Ele compra quando percebe um valor igual ou maior do que o preço. Por isso, precificar não é só fazer conta. Também é cuidar de tudo o que aumenta a percepção de valor:

  • Atendimento e agilidade.
  • Apresentação do produto e da loja.
  • Embalagem, especialmente quando o produto é um presente.
  • Ancoragem: mostrar primeiro uma opção mais completa e mais cara faz as outras parecerem mais acessíveis.

Preço muito baixo também atrapalha. O cliente desconfia da qualidade e você atrai justamente quem não valoriza o seu produto. E preços todos redondos, como R$ 50 ou R$ 100, passam a sensação de que foram chutados.

Quanto à concorrência: use como referência, nunca como base. A estrutura de custos do concorrente é diferente da sua.

Etapa 7: um preço para cada canal

Cartão de crédito, Pix, aplicativo de entrega e marketplace têm custos muito diferentes. Em alguns aplicativos, a comissão chega perto de 30% do valor da venda. Usar o mesmo preço em todos os canais faz com que algumas vendas deem prejuízo. O caminho é calcular um preço para cada forma de pagamento e para cada canal, sempre informado com clareza ao cliente.

Etapa 8: desconto com conta

O desconto sai inteiro da margem. Em um produto com boa margem, 10% de desconto pode exigir cerca de 20% a mais de vendas só para empatar. Antes de qualquer promoção, calcule a margem com o desconto. E considere alternativas que pesam menos: kits, combos, brindes e venda de complementos, que ainda aumentam o ticket médio.

Etapa 9: reajustar no ritmo dos custos

A inflação da sua empresa é diferente da inflação oficial: ela é o quanto os seus custos subiram. Sempre que um custo importante mudar, o preço precisa ser revisto. Reajustes pequenos e frequentes perdem menos margem no caminho e incomodam muito menos o cliente do que um aumento grande depois de um ano.

Etapa 10: acompanhar os números

Precificação não termina na etiqueta. Acompanhe todo mês:

  • O CMV de cada produto e da empresa. No varejo, uma referência comum é ficar entre 30% e 35%.
  • A margem de contribuição de cada produto, para saber quem sustenta o resultado e quem tira dinheiro da empresa.
  • Os produtos que mais vendem. Em geral, 20% dos itens respondem por 80% do faturamento. É neles que um ajuste faz mais diferença.
  • O giro: produto que vende pouco precisa de margem maior.

E quando o negócio vende serviço?

A lógica é a mesma, mas o principal custo muda. Em serviços, quase tudo gira em torno do tempo. O ponto de partida é o valor da sua hora: some os gastos fixos e o pró-labore do mês e divida pelas horas que você realmente consegue cobrar, e não por todas as horas trabalhadas. Orçamentos, deslocamentos, compras e administração tomam uma parte do dia que não entra na conta do cliente.

Com o valor da hora definido, o custo de cada serviço é a soma das horas de execução, dos materiais usados e do deslocamento. Daí em diante, a fórmula é a mesma dos produtos. E, como o cliente compra um problema resolvido, e não horas, experiência, pontualidade e comunicação clara pesam muito no preço que ele aceita pagar.

Os erros mais comuns, em uma lista

  • Preço no achismo ou copiado do concorrente.
  • Markup tirado da cabeça.
  • Custo sem frete, embalagem, impostos da compra e perdas.
  • Imposto e taxas fora do preço.
  • Custos desatualizados e nenhum processo de reajuste.
  • Promoção sem estratégia e desconto demais.
  • Falta de meta de vendas por produto.
  • Faturamento confundido com lucro.

Por onde começar

Se você nunca calculou o preço dos seus produtos com método, comece pelo básico:

  1. Liste os produtos que mais vendem.
  2. Monte o custo completo de cada um.
  3. Descubra os seus percentuais: imposto, taxas e gastos fixos.
  4. Calcule o preço pela fórmula e compare com o preço atual.
  5. Ajuste primeiro os produtos em que a diferença é maior.

Os guias abaixo detalham cada uma dessas etapas, com exemplos de conta, e há guias específicos para vários tipos de negócio.

Todos os guias

Conceitos de precificação

Precificação por tipo de negócio

Desafio Preço Certo

Descubra se o seu preço está certo

No Desafio Preço Certo você usa uma planilha pronta, em 3 dias e com 3 aulas curtas, para ver quais preços estão dando lucro e corrigir os que não estão.

Quero fazer o Desafio Preço Certo