Neste guia
"Todo mundo ouve que a inflação subiu ou desceu. Mas quase ninguém sabe quanto ela mexe no lucro da própria empresa." Quem não sabe fica olhando a inflação do noticiário e achando que está tudo sob controle, enquanto fatura o mesmo e lucra menos a cada ano.
O que mais prejudica um negócio não é a inflação alta, e sim não saber como ela chega à empresa e o que fazer a respeito. Neste guia você vai ver por que a inflação da sua empresa é diferente da oficial, como calcular a sua de dois jeitos, quanto ela corta do lucro e quanto reajustar o preço.
A inflação oficial é uma média
A inflação divulgada pelo governo é calculada pelo IBGE e se baseia em um conjunto de produtos e serviços mais consumidos pelas famílias brasileiras que ganham de 1 a 40 salários mínimos. Se o feijão faz parte dessa cesta e sobe de preço, a inflação sobe.
Esse índice não está errado. Mas é uma convenção, uma estatística, uma média. Uma pessoa que come caviar tem uma inflação diferente de quem come macarrão. E a sua empresa, que não compra a cesta de uma família e sim ingredientes, embalagens, mercadoria, aluguel e salários, também tem uma inflação diferente. O índice oficial vale como referência, não como a sua conta.
O que a inflação faz com o lucro
Inflação é o aumento dos preços. A consequência é a perda do poder de compra: o mesmo dinheiro compra menos.
Pense em uma empresa que lucra R$ 10.000,00 por mês, todos os meses, há 10 anos. Naquela época, esse lucro comprava uma máquina que aumentava o faturamento, pagava campanhas de marketing que traziam clientes e ainda sobrava uma parte para o dono. Hoje, os mesmos R$ 10.000,00 não dão para fazer tudo isso. O lucro nominal é o mesmo, mas o que ele compra é bem menos. É por isso que muita empresa que lucra "bem" vive apertada: o que sobra não permite investir como antes.
Método rápido: compare com 12 meses atrás
Este é o jeito mais simples de achar a inflação do seu negócio. Compare o total de custos e despesas de hoje com o de um ano atrás.
Exemplo: um ano atrás, os custos e despesas fixos e variáveis eram de R$ 40.000,00. Hoje são de R$ 44.000,00. O faturamento continuou o mesmo, R$ 50.000,00.
- Aumento em reais: 44.000 menos 40.000 = R$ 4.000,00.
- Dividindo pelo valor de um ano atrás: 4.000 dividido por 40.000 = 0,1.
- Multiplicando por 100: inflação do negócio de 10%.
Agora veja o que isso fez com o lucro:
- Um ano atrás: 50.000 menos 40.000 = R$ 10.000,00 de lucro.
- Hoje: 50.000 menos 44.000 = R$ 6.000,00 de lucro.
- Diferença: R$ 4.000,00. Dividida pelo lucro de um ano atrás, 4.000 dividido por 10.000 = 0,4, ou 40%.
Atenção para não confundir. A inflação dessa empresa foi de 10%. O que caiu 40% foi o lucro. A queda do lucro é maior que a inflação porque o lucro é o pedaço pequeno que sobra depois dos custos. Um atalho: queda do lucro = inflação vezes (custos divididos pelo lucro). No exemplo, 10% vezes (40.000 dividido por 10.000) = 40%.
Esse exemplo supõe que os preços e o volume de vendas não mudaram em 12 meses. Na vida real o faturamento também varia, e comparar os dois lados é justamente a ideia.
Método por grupos de custo: descubra o que mais pesa
O método rápido diz quanto a inflação foi. Para saber o que a puxou, abra os custos em grupos:
- Liste os grupos: ingredientes ou mercadoria, embalagem, gás ou energia, aluguel, salários e outros.
- Calcule o peso de cada um no total de custos e despesas.
- Compare o preço de hoje com o de 12 meses atrás, olhando notas de compra e boletos.
- Multiplique a variação de cada grupo pelo seu peso e some.
Abrindo os R$ 40.000,00 do exemplo:
- Ingredientes: peso de 40%, subiram 12%. Contribuição: 0,40 vezes 12 = 4,8
- Embalagens: peso de 10%, subiram 8%. Contribuição: 0,10 vezes 8 = 0,8
- Gás: peso de 5%, subiu 16%. Contribuição: 0,05 vezes 16 = 0,8
- Aluguel: peso de 20%, subiu 8%. Contribuição: 0,20 vezes 8 = 1,6
- Salários: peso de 25%, subiram 8%. Contribuição: 0,25 vezes 8 = 2,0
A soma das contribuições é 4,8 mais 0,8 mais 0,8 mais 1,6 mais 2,0 = 10%, o mesmo resultado do método rápido. Agora você enxerga que quase metade da inflação veio dos ingredientes. É ali que vale negociar com fornecedor, comparar cotações ou trocar de marca.
Quanto reajustar o preço
Para voltar ao lucro de R$ 10.000,00 com os custos de R$ 44.000,00, o faturamento precisa ir a 44.000 mais 10.000 = R$ 54.000,00. É um aumento de 54.000 dividido por 50.000 menos 1, ou 8%.
Um atalho: reajuste necessário = inflação do negócio vezes (custos divididos pelo faturamento). No exemplo, 10% vezes (40.000 dividido por 50.000) = 8%.
Use esse número como ponto de partida. A conta supõe que o volume de vendas continua o mesmo e não considera que impostos e taxas, que são percentuais do preço, também acompanham o aumento. Confira os produtos que mais vendem com a ficha de custo.
Reajustar não é só subir o preço. Cuide do posicionamento e do valor que o cliente percebe, para que o aumento seja aceito.
Com que frequência calcular
- A cada trimestre é um bom ritmo para a maioria dos negócios.
- Todo mês para quem compra produtos de preço muito instável, como alimentos.
- Sempre que um fornecedor grande mudar a tabela.
Os custos sobem um pouco o tempo todo. Esperar um ano e reajustar de uma vez assusta o cliente e perde meses de margem. Reajustes pequenos e frequentes costumam ser melhores.
O que fazer com o resultado
- Anote tudo e analise os números todo mês.
- Compare os resultados com os de 12 meses atrás.
- Identifique as despesas que puxaram a inflação e procure onde reduzir.
- Reajuste os preços quando for necessário, começando pelos produtos mais vendidos.
- Atualize as fichas técnicas dos produtos.
Quando você entende que cada negócio tem a própria inflação e que a correção está nas suas mãos, a empresa pode continuar crescendo mesmo quando a economia não ajuda.
Resumo
- A inflação oficial é uma média das famílias. A do seu negócio é o aumento dos seus custos.
- Método rápido: custos de hoje menos custos de 12 meses atrás, dividido pelos custos de 12 meses atrás.
- A queda do lucro é maior que a inflação: inflação vezes (custos divididos pelo lucro).
- Para saber o que pesa mais, abra os custos em grupos e multiplique a variação pelo peso.
- Reajuste necessário = inflação do negócio vezes (custos divididos pelo faturamento).
- Refaça a conta a cada trimestre.






